Há 60 anos, a revolução do Concílio Vaticano II
Foi com o Concílio que a Igreja se viu a si mesma pela primeira vez como Igreja universal… Apesar de todos os recuos posteriores o Concílio inaugurou "uma era nova" ... Mas o caminho é longo, muito longo, e cheio de obstáculos
A 11 de Outubro de 1962, o Papa João XXIII inaugurou em Roma o II Concílio do Vaticano, que foi encerrado pelo Papa Paulo VI no dia 8 de Dezembro de 1965 — há, portanto, 60 anos.
Não há dúvida de que o Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos maiores e decisivos do século XX. É impossível imaginar o que seria a Igreja católica e por arrastamento o mundo sem o Concílio. Não é, porém, difícil supor que a Igreja se teria tornado um bloco marmóreo a dar guarida a um museu de coisas religiosas. Quem quiser aproximar-se da situação vá ler os manuais de teologia dogmática, de teologia moral, de direito canónico, de liturgia, por onde estudavam os futuros padres antes do Concílio, e pense, por exemplo, quena década de cinquenta do século XX ainda se proibia às freiras a leitura da Bíblia, ou que estava em vigor o Índex ou lista dos livros proibidos aos católicos, onde figuravam não apenas os teólogos críticos, mas também — só exemplos — Copérnico e Galileu, Descartes e Pascal, Hobbes, Locke e Hume, a Crítica da razão pura de Kant, evidentemente Rousseau e Voltaire, também Comte, os grandes historiadores Condorcet, Ranke, Taine, igualmente Diderot e D'Alembert, os juristas e filósofos do Direito Grotius, Von Pufendorf, Montesquieu, a nata da literatura moderna, de Heine, Vítor Hugo, Lamartine, Dumas pai e filho, Balzac, Flaubert, Zola, a Leopardi e D'Annunzio, entre os mais recentes, Sartre, Simone de Beauvoir, André Gide... Perante isto, quem não mantiver algum humor fica atónito.
Não é descabido afirmar que depois do momento em que, logo no seu início, decidiu a sua abertura aos gentios, a Igreja terá tido no Vaticano II o acontecimento mais decisivo para a sua história.
Foi com o Concílio que a Igreja se viu a si mesma pela primeira vez como Igreja universal. Antes, era uma Igreja romanocêntrico, com sucursais ou filiais nos vários continentes. Apesar de toda a timidez, a Cúria romana foi-se internacionalizando, as diferentes Conferências episcopais assumiram responsabilidades e tomadas de posição autónomas, os leigos estudaram teologia e começaram a participar na vida eclesial sem ser por mera delegação da hierarquia. Contra uma concepção clericalizada, afirmou-se a Igreja como Povo de Deus.
Abriu-se uma era autenticamente ecuménica, na medida em que a Igreja assumiu muitas das exigências da Reforma e tentou a reconciliação com a Modernidade. Assim, outras comunidades cristãs foram reconhecidas como Igrejas, as celebrações litúrgicas viram consagrado o uso das línguas vernáculas — pense-se na Eucaristia em latim e o padre de costas para o povo... Afirmou-se claramente a liberdade religiosa e de consciência, os direitos humanos foram igualmente reconhecidos, condenou-se o antisemitismo com que a própria Igreja tinha sido cúmplice, abriu-se um caminho novo de respeito, de diálogo e cooperação com todas as religiões e também com os não crentes, estabeleceu-se uma atitude fundamentalmente positiva em relação à democracia, à ciência, ao progresso, reconheceu-se a separação da Igreja e do Estado, da religião e da política, e a autonomia das realidades terrrestres. A nova atitude face ao mundo já não era de condenação, mas de diálogo e de colaboração leal.
Apesar de todos os recuos posteriores, a Constituição da Igreja resultante do Concílio dissociou-se, como escreveu o célebre teólogo Hans Küng, da concepção da Igreja como "uma espécie de império romano sobrenatural, que se tinha mantido desde o século XI", e o Concílio inaugurou "uma era nova" na história da Igreja católica.
Perante os recuos, o saudoso Papa Francisco foi concretizando a esperança da continuação da “Primavera” do Concílio... Mas o caminho é longo, muito longo, e cheio de obstáculos, como tentarei mostrar na próxima semana...