E vós quem dizeis que eu sou?
Jesus é, como escreveu o filósofo Karl Jaspers, uma das "figuras determinantes" ou "decisivas" da História humana. Não há dúvida nenhuma de que, sem ele, a História do mundo não seria como é. A sua figura continua enigmática e misteriosa, e, ao longo destes dois mil anos, foram muitos os que de um modo ou outro tentaram responder à pergunta que o próprio Jesus colocara em relação à sua pessoa: “Quem dizem os homens que eu sou? E vós quem dizeis que eu sou?” E as respostas são sempre teórico-práticas, pois, ao contrário, por exemplo, de um filósofo, Jesus é também um modelo para viver e para morrer.
Mesmo correndo o risco, inevitável, de simplificações apressadas, poder-se-ia dizer que o que hoje está em confronto é uma cristologia "a partir de cima", helenística, que utiliza categorias gregas, como "consubstancial ao Pai", "união hipostática", "encarnação", e uma cristologia "a partir de baixo", bíblica, que procura fazer o percurso dos discípulos com o Jesus histórico, tentando balbuciar o mistério da sua pessoa.
Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus. Pelo contrário, como se escreve no Evangelho segundo São Marcos, a alguém que o chamou "bom mestre" respondeu: "Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus". A sua humanidade manifestou-se no seu saber limitado, na sua fé em Deus, na consciência que tinha de si — considerou que tinha uma missão absoluta e de importância última e decisiva para a humanidade, mas ao mesmo tempo interrogou Deus até ao último momento da sua vida — lá está aquela oração que, do alto da Cruz, atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste”. Mas confiou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.
Foi depois da experiência pascal — Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos: na morte, Jesus não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus — que os discípulos compreenderam e testemunharam até ao martírio que ele é o Cristo, o Messias. Reflectindo à luz da ressurreição — mas a vida, a morte e a ressurreição só se compreendem na interdependência: Deus não podia deixar na morte quem viveu e morreu como Jesus; por sua vez, se Deus o ressuscitou, ele é verdadeiramente o Messias e o Salvador —, recordaram o que na sua vida terrena, nas suas palavras, nas suas acções, na sua morte, exprimia uma relação de intimidade única com Deus: declarou-se senhor do sábado e acima de Moisés, ensinava com autoridade, autodesignou-se como o Filho do Homem e sobretudo relacionava-se com Deus como Abbá (Pai querido), experiência que traduziu numa entrega incondicional de amor pela humanidade até à morte. Através dele, as primeiras comunidades cristãs fizeram a experiência de que "Deus é amor", como se lê na Primeira Carta de São João, e acreditaram nele como o Filho de Deus — a expressão "o Deus" refere-se sempre ao Pai. Na sua pessoa, mostrou-se de modo definitivo e insuperável a relação salvadora de Deus para com o mundo e qual deve ser a relação dos seres humanos com Deus e entre si. Na vida e na morte.
Ainda hoje, quem acredita em Jesus Cristo é porque se reconhece nele, encontrando o sentido último para a existência e para a História.
Aqui chegados, com a constatação de que Jesus nunca se declarou a si mesmo Deus e que o Novo Testamento quando se refere a Deus pura e simplesmente (ho theós) se refere a Deus Pai, é natural a pergunta pela Santíssima Trindade. Servir-me-ei concretamente do célebre teólogo Hans Küng, na sua obra famosa: Credo. Das Apostolische Glaubensbekenntnis-Zeitgenossen erklärt (Credo. A confissão de fé dos apóstolos explicada às pessoas de hoje).
Küng começa por perguntar: Porque é que a Santíssima Trindade não é mencionada no Símbolo dos Apóstolos? Porque é que no Credo da fé em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo não se diz uma palavra sobre o Deus trino e uno, a Santíssima Trindade, que, para muitos teólogos é considerado o “mistério central” do cristianismo?” A doutrina clássica trinitária de “uma natureza divina em três pessoas” só apareceu nos finais do século IV e a festa da Santíssima Trindade só foi declarada obrigatória em 1334 pelo Papa João XXII.
Sim, ninguém pode negar que no Novo Testamento se fala do Pai, Filho e Espírito e que a fórmula litúrgica do baptismo segundo o Evangelho de São Mateus é: Baptizai “no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28, 19). A questão, porém, é como estão relacionados entre si o Pai, o Filho e o Espírito. Ora, no Novo Testamento, não há um único passo onde se diga que Pai, Filho e Espírito são “da mesma essência”, isto é, possuem uma só natureza comum (physis, substância).
Assim, conclui, Küng, não admira que o Símbolo dos Apóstolos não fale da Santíssima Trindade. E a pergunta é: como falar de Pai, Filho e Espírito, evitando todo o perigo e até a acusação, concretamente por parte dos muçulmanos, de os cristãos professarem um triteísmo.
Fica aí o resumo em três teses do que, a partir de uma perspectiva do Novo Testamento e olhando para o mundo actual, Hans Küng considera, e eu com ele, “o núcleo bíblico da doutrina tradicional sobre a Trindade:
- Crer em Deus, o Pai, é crer no Deus uno, que criou o mundo e o ser humano, que os mantém no ser e os leva à consumação.
- Crer no Espírito Santo é crer no poder e na força actuantes de Deus no ser humano e no mundo.
- Crer no Filho de Deus é crer na revelação do Deus uno no homem Jesus de Nazaré, que é assim Palavra, Imagem e Filho de Deus.”