A maternidade e seus discursos

Maria Clara Lucchetti Bingemer
07 jun 2018 - 04:42

O Dia das Mães vem se tornando uma data sobretudo comercial. Produtos se

propõem fazer mais felizes aquelas que um dia geraram filhos. Para além dos

presentes, no entanto, a data relembra a experiência mais primordial da humanidade

desde seus primórdios: a relação entre mãe e filho.

Sendo nas sociedades primitivas algo natural, parte do ciclo biológico da vida

que se reproduz e se multiplica, a maternidade passou a ser pensada pela razão e a

cultura. Para isso produziu discursos que atravessaram séculos e conheceram

transformações segundo épocas e contextos.

Nas grandes religiões encontra-se a presença de deusas mães que marcam as

crenças com o selo da fertilidade e da fecundação. Seu ritmo é o da mãe terra com

suas estações, mortes e renascimentos. Já as religiões monoteístas são urânicas,

marcadas por movimento da revelação de um Deus único e transcendente invocado

com nomes masculinos como Senhor, Forte Guerreiro, Pai.

No discurso do Cristianismo, porém, há uma novidade introduzida pela

maternidade: a pessoa da mãe de Jesus. O Cristianismo afirma que a pessoa divina

do Verbo se encarna no ventre da jovem Maria de Nazaré. É a mãe que dá carne,

humanidade, a esse que os cristãos proclamam humano e divino. E esse mistério da

maternidade divina configurará toda a tradição cristã.

Paulo de Tarso, judeu filho de judeus, cidadão romano e primeiro teólogo, dirá

na Carta aos Gálatas: “Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho nascido de

mulher”. E por isso, porque inaugura uma plenitude transcendente dentro da

temporalidade histórica, a relação da Mãe com o Filho é geradora de vida e sentido

para a humanidade. Maria é mãe, gerando quem a gerou, sendo anterior ao filho em

sua humanidade, mas posterior por sua divindade. Ultrapassa os limites da

ginecologia e da biologia, sendo reconhecida e cultuada como virgem e mãe

simultaneamente.

O imaginário religioso cristão cria assim uma nova matriz para uma rede de

outras relações muito complexas: a de Deus com a humanidade, a do homem com a

mulher, a do filho com a mãe entre outras muitas. E deixa patente o fato de que o

discurso sobre a maternidade da Virgem Maria foi, sem dúvida, o mais forte que o

Ocidente já conheceu.

Forçoso é reconhecer, apesar disso, a grande contribuição que a crítica

feminista tem feito com respeito ao mito do amor materno. Chavões sobre a

incondicionalidade do amor da mãe que se sacrifica até o fim pelo filho esquecendo-se

de si própria, sintetizados no famoso “ser mãe é padecer no paraíso”, são hoje

rejeitados. Da mesma forma o antigo preconceito de a maternidade ser vista como

único e irrevogável destino da vida de uma mulher não se sustenta atualmente.

As mulheres se emanciparam, entraram no espaço público e no mercado de

trabalho. As jovens mães muitas vezes dividem com os esposos e companheiros o

cuidado dos filhos e combinam os deveres da maternidade com as obrigações

profissionais. Algumas planejam sua maternidade, escolhem o tempo e o momento em

que desejam procriar. Outras já não desfrutam desse privilégio. Esmagadas pela

pobreza ou pela violência ou por ambas, são engravidadas ainda adolescentes por um

parente próximo que pode até ser o próprio pai, dentro de casa.

No entanto, é fato que nada ainda conseguiu substituir a experiência única de

gerar e hospedar em seu próprio corpo outra vida. E por isso a primeira experiência de

alteridade e relação que qualquer ser humano tem ou terá será aquela que se inicia no

ventre materno. Por mais traumática que seja, por mais negativa. É o milagre de

habitar em outro e ser por ele habitada que ali acontece. Do santo ao criminoso, do

gênio ao iletrado, do rico ao pobre, todos, sem exceção, são - somos – filhos e filhas

de mulher. Temos mãe.

Muitas, além de termos mãe, somos mães. Um dia sentimos pulsar outro

coração junto ao nosso. Vimos nosso corpo se transformar ao ritmo do outro que em

nós crescia e se desenvolvia. E ao termo desse processo de intimidade e comunhão

com a outra vida que em nós acontecia, vivemos a plenitude de dar à luz e receber em

nossos braços aquele pequeno ser que nos fez e faz sentir que o mundo começa e

recomeça.

Para todas, neste dia, desejo a consciência da graça de viver essa

plenitude. Não só para Maria de Nazaré chegou a plenitude dos tempos com o

nascimento de seu Filho a quem deu o nome de Jesus, que quer dizer Deus salva. Em

cada mãe que viveu a experiência do alumbramento, essa plenitude chegou.

Por isso é urgente recuperar o discurso da maternidade, algo obscurecido por

discursos outros que predominam na modernidade e na secularização. Se a

maternidade não voltar a encontrar sua cidadania plena na vida humana hoje, é de se

temer que caminhemos para uma perigosa decadência sem esperança de volta.

Que se presenteiem as mães. Não esquecendo, porém, que para elas o maior

presente já foi dado. Presente que é graça recebida chamada a converter-se em

doação permanente. Ser humana e mortal e ao mesmo tempo morada da vida. Ser

portadora do desejo do amor que é fértil e que se reproduz. Ser frágil e perecível mas

carregar em si o segredo da vida que não morre porque continua a acontecer para

sempre e continuamente.

Feliz Dia das mães para todas.

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