Os sinais de quem vem

Maria Clara Lucchetti Bingemer
10 may 2024 - 20:05

Que ano duro e difícil para o povo brasileiro, esse 2022 que se aproxima do fim. Quanta

angústia, quanta dor, quanto medo vivido, quanta ansiedade reprimida. Após dois anos de uma

pandemia que a todos confinou e tantas perdas dolorosas gerou, parecia que no início do ano

anunciava-se uma trégua. As vacinas existiam e estavam disponíveis, muitos as tomamos,

sentíamo-nos protegidos.

Porém nesse momento a “outra” pandemia – ou seria a mais real de todas, a única que

realmente existiu? – mostrou seu rosto sombrio. E a política polarizada e enraivecida dividiu o

país e o povo, rompendo relações e instaurando um clima ameaçador no cotidiano dos

brasileiros. A inflação, a subida dos preços, as dificuldades muitas de cada dia pareciam

pequenas, menores, diante da terrível perspectiva de que poderíamos ser obrigados a viver mais

alguns anos de opressão, impiedade e violência. E talvez, com mais tempo pela frente, essa

desolação maior se instalasse e permanecesse roubando-nos para sempre a alegria.

A eleição aconteceu e parecia que a vitória acontecida exorcizava os fantasmas. No

entanto, o que se vive agora, neste tempo posterior às urnas, continua a ser obscurecido e

ameaçado por manifestações que bloqueiam estradas, impedem o direito de ir e vir, decretam

que filhas não podem dar o último abraço à mãe que está morrendo em hospital distante;

bloqueiam a ida de um jovem à rodoviária para tomar o ônibus que o levaria à cirurgia que lhe

devolveria a visão.

Grupos revestidos com a bandeira brasileira se aglomeram diante de quartéis ou em plena

rua, pedindo a intervenção militar em nome da democracia. O nome de Deus é invocado a cada

momento, seja ao lado de outras palavras de ordem como pátria e família, seja simbolizado em

celulares postos no alto de cabeças na absurda intenção de comunicar-se com seres

extraterrestres para que concedam a graça do estado de exceção em nome da liberdade.

Tudo isso leva a desejar mais ardentemente que venha o que se espera: a paz, a vida em

abundância, a alegria. E a buscar ansiosamente sinais desse estado de coisas, por mínimos que

sejam. Porém, em meio a essa sagrada busca notícias de partidas abruptas de seres admirados

e amados por todos, que ajudaram a dar ao Brasil sua identidade, trazem outra vez a dor: Gal

Costa, a baiana linda de cabelos negros e cacheados, boca vermelha e voz afinada cai fulminada

por um infarto em sua casa. Erasmo Carlos, o gigante gentil, o tremendão amado que embalou

juventudes e brasileiros de todas as idades, é derrubado por uma doença já instalada em seu

corpo e diz adeus.

Como viver o Advento nesse clima em que parece que nada vem e tudo se vai. Vai-se o

bem-estar, o sentir-se livre, as referências afetivas. E o vazio parece instalar-se com ares

sombrios de quem veio para ficar. E, no entanto, uma vez mais, somos chamados a voltar-nos

para a espera de quem vem. De quem disse que vinha e fielmente vem a cada ano, porque na

verdade já veio na história humana há mais de dois mil anos. E vem a cada dia para todo homem

e mulher que seja capaz de abertura ao mistério e esteja em busca do sentido maior da vida.

A poesia de mais um artista que graças a Deus se encontra vivo entre nós – Alceu Valença

– nomeia a expectativa que insiste em habitar-nos, apesar de todos os percalços, as trevas e o

medo.

Tu vens, tu vens

Eu já escuto os teus sinais

Tu vens, tu vens

Eu já escuto os teus sinais

Como podemos crer nisso? Como, se tudo ao nosso redor parece desmentir a existência

desses sinais e dessa vinda. Como se não enxergamos sinal algum? E, no entanto, a voz do anjo

sussurrou a uma jovem que ela seria mãe do Salvador.

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido

Eu não duvido, já escuto os teus sinais

Na casa de uma jovem moça em Nazaré da Galileia, o mensageiro de Deus chegou

dizendo notícias de começos e boas novas. A voz do anjo sussurrou ao ouvido de Maria, noiva

de José o carpinteiro. E ela, embora perplexa, acreditou e se dispôs a ser a serva do Senhor e a

tornar-se morada de Sua Palavra. Escutando os sinais que o anjo trouxe, seu corpo engravidou

do mistério que anuncia que Deus não se esqueceu da humanidade e uma vez mais foi fiel a seu

povo.

Por isso, hoje nosso povo está convidado a escutar esses sinais prenhes de esperança. O

anjo sussurra e convoca a estar atentos aos sinais da chegada de quem traz uma vez mais a todos

o amor, a união e a paz. Escutar esses sinais é acreditar.

Que tu virias numa manhã de domingo.

Os sinais trazidos pelo mensageiro da alegria e pelo ventre grávido da jovem mãe nos

convidam com firmeza e delicadeza a crer, acolher e anunciar sua vinda por cima dos telhados,

no fundo dos poços, nos grotões da miséria, no aconchego das casas e nos sinos das catedrais.

Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

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