Ainda recentemente Francisco lembrou o seu antecessor, que dizia: “A Igreja não faz proselitismo, cresce muito mais por atracção”
Ele que carregou com o que terá constituído o seu maior pecado — a condenação de dezenas e dezenas de teólogos — também deixou escrito: “Acima do Papa encontra-se a própria consciência
Contra uma Igreja centrada na Europa, confessou, já depois de ter abdicado e pensando na eleição de Bergoglio: “Papa é o Papa, não importa quem seja”
Percebeu a necessidade, no contexto da interdependência de tudo e de todos, de uma Governança global
"Ideia nuclear foi a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer"
"Este foi o seu testamento: abandonou pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço"
"Sem forças “no corpo e no espírito”, abdicou, “em consciência e plena liberdade”, para que outro lhe sucedesse"
Os Evangelhos escrevem sobre realidade histórica, mas foram escritos por quem, à luz do fim, já acreditava que Jesus é, na confissão de São Pedro, “o Filho do Deus vivo”
"Ora, a vida cristã, se quiser ser verdadeiramente cristã, no discipulado de Jesus, tem de ser determinada mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia"
"A Igreja só se justifica enquanto vive, transporta e entrega a todos, por palavras e obras, o Evangelho de Jesus, a sua mensagem de dignificação de todos, mensagem que mudou a História"
"Com esta expressão — é sempre Advento, ainda é Advento —, Ernst Bloch queria apelar para a esperança. O mundo e a humanidade continuam grávidos de ânsia e possibilidades, e a esperança está viva e há razões objectivas para esperar"
"Quando se pensa nas raízes da Europa, é claro que, para quem está atento e não tem preconceitos, um dos fundamentos determinantes da Europa é o cristianismo"
"Assim também, sem o conhecimento da Bíblia, não podemos compreender as catedrais, o gótico, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Haendel, Bach, Beethoven, os Requiem, 'absolutamente nada', escrevia Ernst Bloch"
"O pecado de Adao tornou a humanidade toda 'massa damnata', massa condenada, ao inferno, do qual só alguns são libertados pela graça imerecida de Deus"
"Portanto, se não há pecado original no sentido tradicional, qual é o sentido da festa da Imaculada Conceição?"
"O que de facto se celebra é Maria como a primeira cristã e a esperança de que no final se realize o Reino de Deus na sua plenitude, pondo termo a todo o calvário do mundo"
"No Catar, onde há pena de morte e a violação dos direitos humanos é constante, na construção dos estádios e outras infraestruturas terão morrido 6500 trabalhadores migrantes…"
"Vamos precisar de trabalhadores migrantes, mas não podem ter uma vida escravizada. Têm de ser recebidos com dignidade, receber salários justos e com os devidos descontos"
"As religiões também têm culpas. Pergunta-se, por exemplo: para quando o fim da discriminação das mulheres na Igreja?"
Igualdade de direitos, mas também igualdade de oportunidades; caso contrário, empobrecemo-nos. Há ainda muito caminho para percorrer
"O que impede acabar com o celibato obrigatório ou a ordenação de mulheres para presidirem à celebração da Eucaristia? Onde está afinal a igualdade de direitos?"
"Apesar de esperada, a morte de Adriano Moreira foi um choque para mim. É sempre um choque a morte de um amigo: ah!, aquele nunca mais para sempre neste mundo!"
"Evidentemente, tinha dúvidas, mas acreditava que na morte não acaba tudo – confiava em Deus. Continuava a pensar, ele que foi um marido e pai exemplar, que a fé é amparo das famílias"
"Escreveu em 2015 uma carta ao Papa Francisco, da qual destaco a sugestão várias vezes feita: 'Na ONU, em perda de autoridade, deveria ser criado, ao lado dos órgãos institucionais da Carta, um Conselho das Religiões'"
"O Papa Francisco esteve no Cazaquistão nos dias 13-15 de Setembro, para participar no VII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais. Coube-lhe o discurso de encerramento"
"Uma constatação: Aí está 'o peso da insensata loucura da guerra; há demasiado ódio e divisões, demasiada falta de diálogo e de compreensão do outro'"
"É necessário reconhecer que 'as grandes sabedorias e religiões estão chamadas a dar testemunho da existência de um património espiritual e moral comum, que se funda em dois pilares: a transcendência e a fraternidade… Essa é a força oculta que faz com que o mundo avance'"
"Este é o espírito que impregna a Declaração do Congresso, e Francisco quis concluir destacando três palavras"
"O ser humano só é na relação. O ser humano vive mesmo este paradoxo: só porque é abertura a tudo é que é intimidade pessoal e única"
"O Homem é um ser temporal, vai-se fazendo historicamente. O ser humano é simultaneamente um ser que sabe da sua morte inexorável e que constitutivamente espera para lá a morte"
"O filósofo I. Kant escreveu que o ser humano se defronta com três impulsos fundamentais: o prazer, o poder e o ter"
"O poder fascina de tal modo que até há bem pouco tempo se cantava nas igrejas a Deus como 'Senhor Deus dos exércitos'"
"O exemplo é Jesus: ele é o verdadeiro Mestre e Senhor, mas é servidor. Assim, todos devem levar o mais longe possível os seus dons, não para dominar, mas para a maior realização de todos"
"É preciso reconhecer também que relegar o facto religioso para fora dos circuitos da transmissão racional, portanto, escolar, não é o melhor remédio para enfrentar “a vaga esotérica e irracionalista” bem como o fundamentalismo"
"O princípio a manter no ensino do facto religioso na escola pública foi formulado pelo filósofo Hegel: não se trata de tornar os crentes descrentes nem os descrentes crentes, mas contribuir para que todos se tornem lúcidos"
"Evidentemente, os senhores da Cúria sentiam desconforto e desconcerto com esta simplicidade e humildade. Por isso, não poupavam nos comentários críticos e ácidos"
"Ficaram sempre as suspeitas de assassinato. Lá está a eterna pergunta: Porque não se fez a autópsia?"
"Com os sucessores, João Paulo II e Bento XVI, houve retrocesso em relação ao Concílio. Francisco voltou ao espírito revolucionário conciliar"
"Mas qual é a verdadeira intenção do Apocalipse, que é, repito, o último livro da Bíblia? Escrito durante a perseguição dos cristãos por Roma, é um livro que, em linguagem simbólica e cifrada, quer essencialmente dar ânimo aos que crêem"
"No contexto de uma reflexão sobre o Apocalipse, quero sublinhar como decisivo o diálogo inter-religioso, em ordem a evitar uma catástrofe apocalíptica"
Francisco vive sobremaneira preocupado com o perigo nuclear. Por isso, não se cansa de declarar como doutrina oficial da Igreja que “o uso e a posse de armas atómicas são imorais”
Francisco deixa uma marca indelével na Igreja. Ele não quer uma Igreja “autorreferencial”, ela tem de estar aberta ao mundo, “em saída”
Francisco é jesuíta, e há um ponto essencial para um jesuíta: o discernimento. Ele irá, portanto, segundo as circunstâncias, discernindo, para tomar a decisão certa
É minha convicção que ele, excepto no caso de total incapacidade, não renunciará enquanto Bento XVI viver
"Deus tinha de morrer, porque o Deus anunciado pelo cristianismo oficial era o inimigo da vida"
"Mais uma vez, não tem Nietzsche razão? Como foi possível pregar um Deus que enviou o Filho para ser crucificado e assim pagar a dívida infinita da Humanidade e Deus poder reconciliar-se com ela?"
O governo da Igreja tem de “ser profundamente repensado e reconstruído"
Impõe-se “valorizar o lugar da mulher na Igreja”, indo aliás ao encontro de várias práticas das primeiras comunidades cristãs
"Atendendo à evolução recente e inédita da nossa civilização, o catolicismo deve, portanto, dar finalmente à mulher todo o seu lugar, em igualdade com o homem, nos ministérios e no governo de uma religião que se quer universal e comum a homens e mulheres"