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 O Homem pergunta por Deus: O grande enigma

"Deus não se impõe, não se manifesta com evidência, e o crente sabe que Deus poderá não existir e o ateu sabe que Deus poderá existir"

Silencio

“Quando no século XXI falamos de céu, inferno e paraíso, utilizamos metáforas. Não cremos que Deus, na sua infinita sabedoria, tenha criado um universo em que realmente existam estes domínios ultra-terrenos. Tão-pouco pensamos que a vida seja uma peregrinação que conduz a Deus. Nisto nos diferenciamos de Dante, o maior poeta da Idade Média.” Aí está, com esta serenidade límpida, a afirmação de entrada de uma breve introdução de Ch. Zschirnt à leitura de A Divina Comédia de Dante Alghieri. 

Silencio de Dios

Reconhecendo, evidentemente, a perplexidade toda destas questões e que Dante se encontra no mundo das metáforas, será assim tão universal e transparente esta declaração de evidência na abolição de Deus e do seu mistério? 

Pouco antes da sua morte, o famoso antropólogo René Girard, por exemplo, à pergunta: “Crê que há algo para lá da morte?”, respondia: “Espero, é a minha fé, um acto de vontade e de esperança. O cristão afirma que não pode reduzir-se tudo ao universo no qual se encontra. Que seja tudo como se nada tivesse sido parece-me demasiado abominável para ser real. Aposto na Realidade.”

A. Lobo Antunes também disse que se zangava com Deus porque permite o sofrimento. “O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria.” E não é a morte “uma puta”? Mas acreditava. “A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia.” Não tem dúvidas? “Acredito sempre mas a dúvida e pôr constantemente em questão é próprio da fé. Muitas vezes pergunto-me: será que existe? É óbvio que sim.”

“Mas reza ou não?” Com as cruzes no horizonte, Eduardo Lourenço pensa e sorri. E respondeu ao EXPRESSO: “Pode-me acontecer!” Neste enquadramento, permito-me uma confidência. Vínhamos, já muito tarde, depois de um debate no Casino da Figueira da Foz, para o hotel. E disse-lhe que o tinha citado. E ele: “Admira-se? Todos os homens rezam”.

Quem pode negar que as religiões também trouxeram ao mundo barbaridade, superstição, guerras, infantilismo? Afinal, o mundo seria melhor sem elas? A causa da indignidade está nas religiões ou nos seus crentes e funcionários que delas se servem de modo rasteiro e blasfemo para seus propósitos desumanos? 

Deus não é objecto de ciência nem pode ser. Há razões para acreditar e há razões para não acreditar. Mas não há um saber científico sobre a existência ou não existência de Deus. Como escreveu o filósofo ateu André Comte-Sponville, “ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: ‘Eu sei que Deus não existe’, esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil’.”

De qualquer forma, face a um deus que anula o Homem, o escraviza e amesquinha, só se pode e deve ser ateu. Esse deus não pode existir. E porquê?

O que une os homens e as mulheres é colocar perguntas. O Homem é ele mesmo pergunta para si mesmo: o que é ser Homem? E há uma pergunta maior, que é a da perguntabilidade, isto é, a pergunta pelo perguntar: qual é a condição de possibilidade do perguntar? 

Na tentativa de responder a esta pergunta radical, o que se encontra é a presença do in/finito. O Homem pergunta porque a sua constituição é a da tensão entre o finito e o infinito. Essa é a sua morada: uma finitude aberta ao infinito e, assim, constitutivamente, questão de Deus enquanto questão, no Aberto. 

Deus não se impõe, não se manifesta com evidência, e o crente sabe que Deus poderá não existir e o ateu sabe que Deus poderá existir.

Na modernidade crítica — e agora vou citar o filósofo jesuíta na sua obra de referência El Gran Enigma, O grande Enigma —, “teísmo e ateísmo são possíveis e podem ser construídos pela razão de forma legítima e honesta moralmente. Aliás, é o que vemos socialmente”: há crentes e ateus honestos, que sabem o que isso quer dizer e se respeitam mutuamente, já que o carácter enigmático do Universo está aberto às duas alternativas.

Segundo o modelo cosmológico padrão, vivemos num universo que se produziu no Big Bang e terminará numa morte energética futura: “um universo que nasce a partir de um “fundo” desconhecido no qual será reabsorvido.” Trata-se, pois, de um universo que, existindo num tempo finito, dificilmente pode ter a sua suficiência em si mesmo, pondo assim a pergunta: qual é o seu fundamento último e absoluto? Como entender esse fundo ou “mar de energia”, “essa espécie de meta-realidade ou dimensão metafísica à qual este nosso universo parece estar referido, segundo as evidências empíricas?” Pode-se argumentar que, a partir da finitude e das propriedades antrópicas deste universo, a realidade última, raiz e fundamento último em que assenta, é uma “Inteligência Pessoal capaz de criá-lo.” O ateísmo seria outra conjectura metafísica, também filosófica: no pressuposto das teorias especulativas de multiversos ou múltiplos universos e de supercordas, essa meta-realidade apresentar-se-ia como “uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo.”

De qualquer modo, teísmo e ateísmo são confrontados com o silêncio de Deus. Este silêncio manifesta-se num duplo plano: no plano cósmico, porque Deus não se revela de modo evidente enquanto criador do universo. O outro é o silêncio de Deus “perante o drama da História, devido ao sofrimento humano pessoal e colectivo e ao mal natural cego e à perversidade humana.” Previno que estou a escrever sob a tristeza esmagadora causada pela violência do duplo sismo que abalou a Venezuela, numa tragédia incomensurável...

Para o ateísmo, o silêncio de Deus é “prova” da sua inexistência, pois há incompatibilidade entre um Deus real e o seu silêncio, sobretudo quando se pensa no calvário do mundo, neste calvário concreto da Venezuela, por exemplo. Como é que um Deus criador, infinitamente bom e poderoso, cala, quando, perante o sofrimento atroz, insuportável, concretamente dos inocentes, se lhe pede ajuda, gritando, suplicando? O silêncio de Deus faz que o ateísmo seja como que “um ajuste de contas” com Deus, sobretudo quando se pensa na malvadez dos responsáveis religiosos. Se Deus existe, é como se não quisesse que acreditemos nele. Para o crente, não é menor o desconcerto, ao ver-se confrontado com a dor alucinante, o abandono, o fracasso, a traição, a guerra, um tsunami, a angústia da vida, o afundamento na morte...

“Tanto a religiosidade humana como o ateísmo são sempre rácio-emocionais”, embora no juízo sobre Deus predomine a força dos impulsos emocionais, da esperança e do sentido. Afinal, a fé é um combate, e a razão e a emoção podem manter o Homem aberto à esperança da existência de um Deus que quer salvar, “acreditando na existência de um Deus oculto e libertador, por cima do seu silêncio”. É possível dar a Deus um voto livre e pessoal de confiança, voto que mostra a sua razoabilidade no próprio acto de confiar. “Não tem sentido viver sem sentido”, mas, ousando entregar-se confiadamente a Deus pela fé, tudo aparece como mais razoável, com luz, com sentido, sentido final precisamente em Deus, o Deus oculto e salvador.

Nota: 1. Em meu nome e em nome de todos os leitores e leitoras vai a mais sentida solidariedade com todas as vítimas na Venezuela.

2. Nos meses de Julho e Agosto, a publicação destas crónicas fica suspensa.

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