Esse troço de matar

Maria Clara Lucchetti Bingemer
07 jun 2018 - 04:51

Matar, assassinar, pôr fim a vidas alheias com motivos políticos, religiosos,

ideológicos é algo que a humanidade tem perpetrado frequente e abundantemente ao

longo de sua história milenar. As motivações para isso são várias: assalto, autodefesa,

paixão não correspondida, ciúmes. Porém, existe uma motivação que se destaca de

todas as outras por sua extensão e crueldade: eliminar, exterminar.

Quem mata elimina o outro da existência e de tudo que a constitui: convívio,

troca, relação, participação, liberdade. E com essa eliminação, persegue um objetivo

mais radical: exterminá-lo, aniquilá-lo. Quando essa eliminação e consequente

extermínio tomou, ao longo da história, proporções volumosas e se revelou não como

um assassinato pontual com motivações individuais, mas como um projeto coletivo e

orquestrado com um fim mais abrangente, foi chamada genocídio.

Muitos genocídios aconteceram na história da humanidade. O que nos é mais

próximo foi certamente o holocausto, o extermínio de judeus na segunda guerra

mundial, que em sua fase mais aguda chamou-se “solução final”. Tratava-se de

limpar a Europa e posteriormente o mundo de todos os judeus. Ao lado destes

entravam na lista exterminatória ciganos, homossexuais, comunistas, enfim, todos

aqueles que apareciam como incômoda diferença dentro do projeto ariano e nazista

que perseguia um mundo formado apenas pela “raça pura”.

Eliminar quem é diferente, quem pensa diferente, quem crê diferente e assim

obstaculiza os projetos de determinado grupo é algo que aconteceu e acontece desde

que o mundo é mundo. Quando essa eliminação toma proporções coletivas e

aumentadas, é considerada crime contra humanidade e, como tal, não prescreve,

devendo ser sua memória para sempre execrada e banida da história humana.

O país foi surpreendido recentemente pelas revelações de um documento da

CIA tornado público pelo pesquisador de Relações Internacionais da Fundação Getúlio

Vargas Matias Spektor. Nele, o personagem destacado é o general Ernesto Geisel,

considerado pelos que acompanham a recente história brasileira, como o homem que

iniciou o processo de abertura para a redemocratização do Brasil. A figura de homem

honrado, de princípios, que começou a distender os chamados anos de chumbo,

emerge do documento secreto como alguém que, ao contrário, apoiava e respaldava

as execuções dos guerrilheiros e ativistas de esquerda como algo necessário para o

bem do país. Ressaltava, no entanto, que apenas os “subversivos perigosos” deveriam

ser executados e que a aprovação prévia do general João Figueiredo – sucessor de

Geisel – seria necessária.

O documento comprova, sem deixar lugar a dúvidas, o que já havia aparecido

nos registros de diálogos que constam do livro do jornalista Elio Gaspari no terceiro

volume da coleção “Ditadura”. Ali é registrada conversa do então presidente Geisel

com o então chefe do Centro de Informações do Exército, Vicente Dale Coutinho, onde

é avaliado que o crescimento econômico que o país então experimentava só se deu

quando se começou a matar. Comenta Geisel que “...esse troço de matar é uma

barbaridade, mas eu acho que tem que ser.”

Aos 104 executados da lista apresentada por Coutinho, Geisel, com uma frase

banal, acabava de abrir uma possibilidade de crescimento exponencial. Os

assassinatos continuaram a acontecer, agora com a bênção presidencial. A mesma

política teve continuidade quando o general Figueiredo subiu ao poder.

É impressionante perceber os pontos de contato que têm essas declarações

do ex-presidente Geisel com outras do ex-presidente argentino Jorge Rafael Videla,

entrevistado na prisão pouco antes de sua morte, em 2013. A entrevista feita pelo

jornalista Ceferino Reato chocou o continente e o mundo quando o ex-ditador

argentino confessa ter usado uma metodologia sistemática de “desaparecimento “ de

vários milhares de militantes de esquerda (30 mil, segundo informações de

associações de direitos humanos no país).

Tal como Geisel, o general Videla explica que era necessário matar esses

subversivos para organizar a sociedade argentina e fazê-la caminhar rumo ao modelo

do liberalismo econômico. Mas como não era conveniente que a sociedade se desse

conta do massacre genocida, escolheram métodos discretos, quais sejam: os voos da

morte, quando os corpos das vítimas eram atirados no Rio da Prata para não serem

encontrados; a não existência de listas de nomes que pudessem posteriormente ser

encontrados. Em suma: apagar qualquer rastro dos crimes.

A esse projeto genocida o general Videla – um católico de missa diária –

chama de “Disposição Final”. Impossível ignorar a analogia com a terminologia

nazista “solução final” dos últimos anos da guerra, quando milhões de judeus

passavam pelas câmaras de gás e os fornos crematórios.

Pelo visto, “... esse troço de matar”, segundo o General Geisel, é um vírus do

qual a humanidade não está livre. Continua ferindo de morte o ethos humano e

carcomendo como verme imundo as entranhas da identidade dos povos que lutam por

liberdade. Não data apenas de seis décadas, mas foi reproduzido há três. E continua

vivo e solto hoje, se voltarmos as costas ao que a memória, com seu poder subversivo

e libertador, insiste em desvelar sobre nosso passado recente.

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