(Merced 3) OLHAR O MUNDO DE HOJE COM OLHOS DE NOLASCO (M. R. Losada)

Principio
Incialmente quero agradacer o convite para estar aqui nesta primeira programação oficial da Província Mercedária do Brasil. Não posso esconder minha emoção. Por dois motivos. Um de caráter pessoal-imaginava que não seria merecedor deste convite. O segundo é público-estive à frente da Vicaria no decorrer de quase duas décadas, lutando para que este dia chegasse. Posso lhes dizer com muita satisfação: sonhei muito com este dia. Quando vejo realizado esse sonho, desejo cantar com o profeta: Num dimitis servum tuum Domine, agora, Senhor, podes levar teu servo em paz ....
Estou aqui, pela gentileza e o bem-querer de vocês. A Província tem o primeiro doutor em teologia, Fr. Lisaneos, que poderá iluminar, noutros momentos, a problemática da espiritualidade e do carisma mercedários. Eu falarei com a autoridade que me conferem meus cabelos brancos, como memória privilegiada do grupo, na condição de quem, marcado pelo carisma mercedário, teve a graça de participar dos principais eventos da Ordem que redefiniram o carisma mercedário, no mundo de hoje e na América Latina, tanto nos Capítulos Gerais de Roma e do México como nos encontros de Provinciais de Córdoba e de Madri.
Desejo situar minha fala na realidade eclesial do momento. Por isso, leva o título: Carisma Mercedário. Discípulos e Missionários do Cristo Libertador: OLHAR O MUNDO DE HOJE COM OS OLHOS DE NOLASCO. Divido minhas palavras em sete pontos, precedidos de algumas observações explanatórias a modo de introdução.
Inicialmente aponto um paradoxo: a necessidade da Família Mercedária ser fiel ao passado e criadora diante do futuro. A Província São Raimundo Nonato, que articula os primeiros passos na história, é um elo de uma corrente de oitocentos anos de história de redentores. Eu disse um ELO, isso, um elo apenas, a continuação de um carisma que o Espírito deu à sua Igreja por intemédio de São Pedro Nolasco, cujo sucessor hoje nos honra com sua presença na pessoa de Fr. Giovannino Tolu, Mestre Geral da Família Mercedária. A este carisma importa sermos fiéis. Mas esta fidelidade deve ser criadora. Os tempos de São Pedro Nolasco não existem mais, estamos num novo tempo. O mundo é outro, a Igreja é outra, a vida religiosa é outra. Fala-se entre nós de re-fundar a Igreja, refundar a vida religiosa. É neste novo tempo que nasce a Província São Raimundo Nonato
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A segunda observação diz da absoluta necessidade de sermos mercedários no coração da Igreja. O carisma é graça, é dom do Espírito regalado à sua Esposa, a Igreja. Aparece assim o segundo paradoxo: o carisma é aquilo que nos define, o que constitui a identidade mercedária; ao mesmo tempo, não nos pertence, é da Igreja. Por causa disso, Pedro Nolasco, hoje, pode ser colocado como discípulo e missionário do Cristo Libertador, na linha da V Conferência de Aparecida. É nessa trilha que se situa o carisma mercedário: no coração da Igreja. Não teria sentido de outra maneira.
A terceira observação é inspirada num artista do barroco espanhol, Zurbaran, que pinta S. Pedro Nolasco, de joelhos, num momento orante: pensa na Igreja, na situação dos cristãos, no que é possível fazer por eles. Enquanto assim orava, tem uma visão onde aparece São Pedro, o primeiro Papa, crucificado, em forma de cruz invertida com a cabeça para baixo e os pés para cima, nu e sofrendo, de maneira que Pedro Nolasco é obrigado a inclinar a cabeça para ver seus olhos, e assim, a partir dos olhos de São Pedro Crucificado, ver o mundo e as pessoas que sofrem. O sentido da cena parece muito simples e evidente: a) Na Igreja, o mais importante são os crucificados, os expulsados e excluídos, os que não tem um lugar para realizar-se livremente;b) Para ver as coisas de forma mercedária, é precisos ter a “cabeça inclinada”: inverter a situação, aprender a olhar de baixo para cima, a partir do cativeiro. Só assim, com os olhos purificados e humilhados, é possível ver os milhões de cativos e expulsos da terra; c) Os dois personagens olhando-se nos olhos, um ensinando de baixo para cima (S. Pedro) o outro aprendendo a inclinar os ohos (Pedro Nolasco), condensam o mistério do Carisma Mercedário, (e o mistério da Igreja) que deve aprender a olhar de baixo para cima, vale dizer, deve aprender a descobrir a Deus nos crucificados.
A quarta observação refere-se à relação íntima entre carisma e instituição, dois elementos constitutivos da vida mercedária. Em primeiro lugar está o carisma, a graça, o dom de Deus, que é preciso cultivar. Entretanto, o carisma não acontece nas nuvens, precisa se encarnar numa instituição concreta, numa forma de vida concreta, religiosa e leiga, num determinado lugar, numa determinada história. Sem carisma, a vida mercedária se dilui, perde o sabor. Sem instituição, o ideal mercedário permanece no mundo da utopia, das palavras vazias que se esfumam no ar, não se encarna. No início da Província São Raimundo Nonato importa atentar para mais este paradoxo do carisma mercedário.
Toda relação humana, se ela quer ser geradora de vida, se ela quer ser libertadora, precisa de um terceiro simbólico no meio. O que é este terceiro simbólico? É o elemento unificador e que dá sentido ao grupo, ao qual as pessoas precisam estar remetidas. No caso da Família Mercedária, os religiosos e leigos, de maneiras diferentes, precisam estar remetidos a algo que os ultrapassa, precisam estar remetidos (comprometidos existencialmente) ao Projeto do Carisma Mercedário (Evangelho, Constituições, etc). Se este terceiro elemento estiver ausente, as pessoas se digladiam entre elas, à procura dos próprios interesses, do poder, etc. porque faltou o elemento unificador. Digo isto para salientar a transcendental importância do carisma na hora de pensar a Província São Raimundo do Brasil. Sem ele, em pouco tempo, tudo desaba porque foi construído sobre areia. E passo ao primeiro ponto
1)Pedro Nolasco e Maria das Mercês.
Pretendo salientar alguns pontos que nos ajudem a entender como Nolasco olhava a Igreja e o mundo. Nasceu em Catalunha, Espanha, em torno a 1180-1182. Era um comerciante. Um comerciante na Idade Média não tinha nenhuma possível comparação com um homem pacato atrás de um balcão ou de um supermercado de hoje. Era obrigado a transportar mercadorias pelos principais portos do Mediterrâneo, como Barcelona, Narbona, Marcelha, Gênova, Nápoles, Sicília, et. enfrentando as intempéries do mar e a violência dos piratas. Nesse comércio descobre que pessoas humanas erão tratadas como mercadoria, compradas e vendidas como um produto qualquer. Por isso, trata-se de um homem de negócios, na linha de Mt 13, 44-45, buscava pérolas finas. Ao achar uma de grande valor, vai, vende tudo que possui e a compra. Em 1202 liberta (compra) o primeiro cativo, gasta tempo e dinheiro, como o Samaritano de Lucas, 10, 33-35 em socorrer os caídos no caminho da vida e escuta a voz de Jesus: “estou cativo” (Mt, 25, 31-45). Em 1218 funda a Ordem Mercedária, como expressão da determinação libertadora do Pai (Prólogo), no espírito do Deus do Êxodo que vê a opressão do povo no Egito, e, de Jesus, na Sinagoga, onde diz que foi enviado para “libertar os cativos” (Lc, 4, 18-19). Em 1235, o Papa Gregório IX confirma a Ordem e no ato da Confirmação, este lhe oferece a Regra de Santo Agostinho, fato que deve ser interpretado da seguinte maneira: a Igreja abençoa e aprova a obra de libertar os cativos, porém, mercedários, só conseguirão realizar esse trabalho, se “tiverem um só coração e uma só alma” (Regra).
Traduzindo a vida de Nolasco na linguagem da V Conferência de Aparacida, procede afirmar que Pedro Nolasco foi discípulo e missionário do Cristo Libertador: imita e continua a obra do Redentor. Era patrão, vende os bens (Mt, 19-21) e se fez servo, servo de Deus e dos cativos. Imita Jesus, que se fez servo como diz a Carta aos Filipenses 2,5. Além de discípulo, é missionário da Libertação: anuncia a alegria da volta dos cativos; anuncia a libertação dos religiosos, isto é, forma com eles um grupo de redentores e anuncia, ainda, a libertação para toda a Igreja oferecendo o testemunho em favor dos cativos e excluídos. Para tornar efetiva a obra dos cativos, organiza a obra redentora, constituída por grupos de leigos, homens e mulheres, para redimir.
Outra chave de leitura para entender Nolasco é pensar na dama inspiradora de sua vida: Maria das Mercês. Contrariamente ao que fizeram seus contemporâneos, Francisco e Domingos, Nolasco não coloca o nome próprio na sua obra. Os franciscanos levam o nome de Francisco, os dominicanos levam o nome de Domingos. Os mercedários levam o nome de Maria das Mercês. Trata-se do detalhe do nome, mas um detalhe muito significativo. Mais significativo ainda quando se pensa que o trabalho da redenção de cativos é sinônimo de mercê . É com esse trabalho redentor que a devoção mariana, já no século XIII, ganha mais uma advocação sob o título de Nossa Senhora das Mercês ou da redenção dos cativos. Se o trabalho da redenção dos cativos confere a Maria mais título, Ela dá o nome e a inspiração libertadora para o grupo de redentores. É a grande inspiradora, modelo dos discípulos e missionários da Libertação. Com efeito, Maria é Mãe dos cativos, na linha Jo, 19, 25-27. Como afirma Pikaza, na exegese do Magníficat, Maria é a Libertadora por excelência: descobre a vazio da riqueza, a incapacidade salvadora do poder opressor e a impotência das ideologias soberbas. E canta o caminho novo na maneira de lidar com o dinheiro, com o poder e com a ideologia.
É possível afirmar, a partir da experiência de Nolasco, inspirado por Maria das Mercês: o dinheiro é para redimir (plano econômico), a vida e o trabalho devem estar a serviço da libertação dos cativos (plano político), a ciência e a cultura ganham sentido a serviço da libertação (plano ideológico). Este é o olhar de Nolasco: vê Cristo nos cativos e coloca sua vida a serviço deles.
II) Olhar o mundo de hoje com os olhos de Nolasco.
Os mundos do século XIII e do século XXI são diferentes, mesmo assim gostaríamos de olhar para o mundo de hoje com os olhos de Nolasco. Esse é nosso maior desafio. Alguns analistas do momento dizem que estamos mergulhados num ponto de mutação; outros afirmam que atravessamos uma transição sócio-cultural com repercussões na organização do conhecimento, na organização da produção e do poder. Outros, ainda, falam em mudança de paradigma: o Sistema se globaliza, a vida e a liberdade estão ameaçadas. Crescem de forma assustadora as desigualdades. Os ricos são cada vez mais às custas de pobres cada vez mais pobres. Nesta transição vertiginosa, só nos fica uma certeza: a mudança é cada vez mais rápida, apontando para um dramático choque do futuro.
De qualquer forma é possível apontar três direções deste processo de mudança: a primeira acontece no campo da tecnologia. Uma máquina de última geração, um computador, um celular, etc, em questão de meses, se torna obsoleta; a segunda direção da mudança incide nos relacionamentos entre as pessoas, mais livres, mais horizontais, com algumas perdas e ganhos: os jovens em geral são avessos a qualquer tipo de hierarquia e formalidade, em compensação são mais autênticos e verdadeiros. A tecnologia possibilita que uma pessoa se relacione virtualmente com alguém do outro lado do planeta, enquanto, em tempo real, essa mesma pessoa é incapaz de se relacionar com que está ao lado. O terceiro eixo de mudança acontece no campo da produção de sentido. A grande crise que atravessa o mundo termina sendo uma crise de significação: o significado das coisas, das pessoas está mudando. Por exemplo, a relação entre um rapaz e uma moça que pouco tempo atrás era denominado namorar ou flertar, agora sofreu um deslocamento de sentido e é entendia como “ficar” e ultimamente “pegar”, ao menos no Rio de Janeiro. O deslizamento de significação do verbo namorar para ficar e pegar acompanha a evolução dos relacionamentos humanos no sentido da provisoriedade e coisificação dos mesmos. Um rapaz que pega x meninas e vai para a cama com y, está denotando a transformação das pessoas em meros objetos de prazer e consumo. Sem dúvida, o processo de mudança em curso incide na produção tecnológica dos bens de consumo e nos relacionamentos interpesssoais, incide sobretudo na produção de sentido ou na falta de sentido.
O teólogo José Comblin, ao falar das “grandes incertezas da Igreja”, na REB de janeiro de 2007, aponta para a grande revolução cultural, que se processa no mundo de hoje a partir dos anos 70. Um elemento importante dessa revolução é a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual. A primeira instituição criticada é a família, que sofre os efeitos do furação que atravessa o mundo de hoje. Os jovens se sentem oprimidos pelos pais, portadores de outros valores. A segunda crítica atinge em cheio o sistema educativo, da escola primária a Universidade. Com freqüência, existe um hiato entre a sala de aula e a vida dos alunos. Por causa disso o sistema educacional é denunciado como repressor: impõe um programa vazio de conteúdo e não prepara para a vida . A crise do Estado aparece na forma do desprestígio dos políticos, na indiferença dos jovens para com a política, na decadência dos partidos, dos sindicatos, da corrupção generalizada. O vazio das instituições mais tradicionais é preenchido pelas entidades econômicas, que constituem uma pequena rede de megaempresas que impõem suas leis. Em nome da liberdade de mercado, conseguem colocar a pesquisa científica, o sistema de informação e o próprio Estado a seu serviço, além de corromper e comprar aos poucos a rede de instituições privadas. Transformam a cultura em comércio. Sem a concorrência das outras instituições mais tradicionais, assumem cada vez mais o poder total e conseguem dominar a vida sem que as pessoas tenham consciência.
Á semelhança do que aconteceu após a Revolução Francesa, a revolução cultural abriu o caminho para uma nova forma de capitalismo, muito mais poderosa, porque invade todos os setores da vida, inclusive o campo religioso, com um imenso progresso tecnológico e científico. Ainda não está longe de nós a visita do Papa Bento XVI para a V Conferência de Aparecida. Chegou a ser repugnante a maneira como foi usada sua imagem pela mídia como garoto propaganda. Ainda hoje no Botafogo Praia Shopping é possível ver a imagem do Papa para vender colchões e objetos de cama e mesa. Como é repugnante ver desfiles de moda com o terço pendurado numa modelo seminua.
Olhando para o mundo de hoje, é possível constatar duas forças antagônicas: de um lado a sofisticação das técnicas de controle dominante. Segundo esta lógica, o importante é acumular e nivelar; tudo se torna um, o lucro. De outro, a energia do desejo libertador, que se expressa nos movimentos populares, nas minorias, nos excluídos, nos cativos.
À luz da ótica mercedária, uma coisa se torna evidente: os mecanismos de opressão são cada vez mais sofisticados e perversos. Isto é intuído por grandes pensadores como Otávio Paz, quando afirma que o maior problema de hoje é que estamos trasformando as pessoas em meros consumidores. Estamos perdendo as bases sobre as quais se assentava a civilização de Ocidente.
Neste contexto, os teólogos mais lúcidos do momento apontam para o término de um período da Igreja. É necessária uma nova Re-forma, esta voltada para a comunhão das pessoas. Os laços sociais estão quebrados, urge recriar outro tipo de igreja que venha de encontro a este vazio que a ciência e a técnica não conseguem preencher.
Neste início do século XXI, neste mundo e nesta Igreja, acontece a ereção canônica da Província São Pedro Nolasco, no Brasil.
III) Onde estão os cativos hoje? As novas formas de catividade.
É admirável o trabalho feito pela Ordem no sentido de atualizar o carisma mercedário. As quatro últimas décadas foram de uma lucidez impressionante a este respeito, a começar pelas Constituições de 1970, onde se fala no número cinco: “A expressão de novas formas de catividade se refere a toda situação oposta à mensagem do Evangelho e que a juízo da Ordem, coloca aos cristãos em grave perigo de abandono ou esfriamento da fé” Isto é retomado depois no Capítulo Geral de 1974, onde se elaboram, de forma precisa, os critérios da Ordem para definir se uma situação é situação de cativeiro. São quatro: 1) é uma situação de opressão; 2)surge de princípios opostos ao Evangelho; 3) nessa situação, o homem corre o risco de perder os valores fundamentais e até a fé; 4)é possível realizar uma ação de presença, de visita e de redenção à semelhança de Nolasco.
Na reunião de Superiores Provinciais de Córdoba, Argentina (1978) são precisados com mais rigor os níveis ou planos da catividade: 1) Existe uma catividade econômica ali onde os homens são oprimidos pela máquina de produção de bens, onde uma minoria acumula o resultado do trabalho de uma esmagadora maioria impossibilitada de aceder a uma vida humana digna; 2) Existe uma catividade política ali onde grupos de pessoas estão submetidos a um controle e submissão que os torna impossibilitados de cultivar os valores pessoais e comunitários; 3) Existe uma catividade ideológica ali onde o poder da propaganda e a força do consumo transformam o homem em escravo de uma maneira de entender a vida incompatível com o Evangelho.
Estes são os critérios do que poderíamos chamar a ótica mercedária no mundo de hoje, quando nos perguntamos onde estão os cativos hoje ou quais são as novas formas de catividade. No plano econômico, estará na linha mercedária aquela atividade que coloque os bens a serviço da libertação. No plano político, afina com o carisma aquele que coloca sua influência e seu trabalho a serviço de uma libertação humana aberta ao mistério da fé. No plano ideológico, uma atividade está orientada na linha mercedária quando coloca a ciência e a cultura a serviço do homem.
Para melhor entender esta situação desejo recorrer de novo a Zurbaran que registrou magistralmente no quadro O Anjo do Apocalipse o que eu não consigo expressar de forma adequada. O protagonista do quadro é Pedro Nolasco, redentor de cativos, em oração e cansado: a liberdade parece impossível, os cativos crescem, os pobres aumentam, não existe resposta possível nesta terra transformada num grande mercado sem entranhas. Nesta situação, o Anjo de Deus intervém e lhe mostra a Nova Jerusalém Celeste, a Nova Cidade do amor e da liberdade, uma cidade de portas e janelas abertas. É essa a meta, é esse o fim para onde se dirige o trabalho redentor. Esta cidade, sem miséria, sem excluídos e cativos, está sendo construída agora. Esse é o sonho de Deus, a promesa do Apocalipse que o Anjo apresenta como anúncio de liberdade e de promesa de plenitude para todos os pobres e cativos da terra, das favelas e das cadeias do mundo. Esta olhar de São Pedro Nolasco não é propriedade dos que desejariam comprar tudo com dinheiro. É a visão dos pobres e moribundos, dos cativos da terra.
Damos um passo mais a frente e nos perguntamos:
IV) Onde estão os cativos na América Latina e no Brasil.
A meu ver, as intuições do grupo de Mercedários que escreveram o livro “A Liberdade está Cativa.Uma leitura da vocação mercedária a partir da América Latina”, continuam válidas. Precisam ser atualizadas. Como continuam válidas as afirmações do texto “Brasil, uma lectura de la vocación mercedária, a partir de las favelas”. Além do esforço de reflexão destes autores, os documentos de Córdoba e do México são absolutamente iluminadores a respeito. Diz o texto Os Mercedários e a Nova Evangelização, n. 60: “Nossa Ordem manteve ao longo dos séculos uma espécie de inclinação inata ou instinto mercedário para os membros mais aflitos e oprimidos do Corpo Místico”. O mesmo documento continua no número 61: “Pedro Nolasco nos ensina a ver com olhos novos: descobriu a Cristo nos cativos e ali quer que o vejamos, em gesto de oração e entrega”. O mesmo documento, no número 63, ao descrever o perfil do mercedário nos dias de hoje, afirma: “O mercedário é homem que se educa para ver...como especialista da liberdade sabe olhar para os homens e problemas atuais, descobrindo assim os elementos e problemas do novo cativeiro”. No número 14, referindo-se a América Latina, diz: “Estamos diante de novas formas de catividade: são muitos os homens e mulheres que vivem “em situações degradantes e opressoras”, que nascem de sistemas que se opõem à mensagem de Jesus e que ameaçam a fé dos cristãos. Por isso os mercedários, libertadores dos cativos, descobrimos aqui nosso lugar, encontramos verdadeiramente nossa tarefa”
V)Projeto de ação mercedária
1) Dimensão espiritual: um plano de ação mercedária, no Brasil de hoje, deve fincar suas raizes num projeto de espiritualidade, em três direções: a primeira nos conduz a Cristo Libertador, presente nos cativos. Parte do tradição mercedária e da Igreja da V Conferência de Aparecida: somos mercedários na medida em que somos discípulos e missionários do Cristo Libertador. A segunda direção nos conduz a Maria redentora dos cativos, vale dizer, o amor de Maria das Mercês se traduz num gesto de compromisso com os oprimidos e cativos. A terceira direção deste projeto nos conduz para um mundo novo, um mundo sem cativos, conforme o sonho de Nolasco pintado por Zurbaran. Outro mundo é possível, outra Igreja é possível, outra vida mercedária é possível.
2) “Menores abandonados”. O projeto de espiritualidade mercedária deve ser encarnado, em vários níveis, em atividades concretas. Nas últimas décadas a Vicaria tinha escolhido os “Menores abandonados” ou o “Trabalho das Creches” para dar forma ao carisma no submundo das favelas das grandes cidades de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro e no interior do Piauí. Espero que ninguém se sinta ofendido se destaco o trabalho extraordinário do carismático Pe Miguel Vázquez a quem devemos em grande parte esta inciativa. Hoje possivelmente este trabalho precisa ser avaliado e assumido em novos moldes. Pessoalmente tenho estudado esta problemática e percebo cada vez mais a complexidade do problema, a começar pelo nome. Depois do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o conceito de “menor” inexiste nos documentos oficiais. Menor era filho de pobre e negro, um pivete, sinônimo de perigo, objeto de cuidados geralmente das instituições da Igreja; já criança era filho de família de bem, classe média e alta. O ECA acabou com esta situação. A partir de agora, todo filho de brasileiro/a nascido no país é criança ou adolescente, cidadão, sujeito de direitos e deveres. A meu juízo, este trabalho continua válido como expressão do carisma. Com uma condição: precisa de pessoas que acompanhem o que acontece a este respeito ao nível de políticas públicas no País e nos Estados, assim como o trabalho de várias ONGs e de outras Congregações e Dioceses. É certo que não pode ser um apêndice do trabalho da Província.
3) Missão redentora nas Paróquias. Desde 1922, quando o Papa encomendou à Ordem a então Prelazia de Bom Jesus do Gurgueia, no Piauí, o trabalho dos Mercedários tem sido majoritariamente paroquial, a serviço da Igreja local. A meu ver, o trabalho mercedário no Piauí ainda não chegou ao fim, mesmo que as antigas Prelazias se transformaram em Dioceses com um número relativamente grande de clero nativo. Uma coisa é certa: o trabalho paroquial consome em torno a oitenta e cinco a noventa por cento das energias da Província. Existem limites e possibilidades neste campo. Os limites decorrem da própria estrutura eclesial, os párocos executam o projeto da respectiva diocese e não pode ser de outra maneira na situação atual. As possibilidades vem dadas pela localização das mesmas. Em todas elas existem realidades sociais que se enquadram nos critérios definidos pela Ordem como específicos de uma realidade de cativeiro atual. Por cima dos limites e das possibilidades que o trabalho paroquial possa oferecer ao carisma mercedário, eu desejo salientar algumas observações decorrentes de minha experiência de leigo na Igreja. Naturalmente estou me referindo apenas à Igreja onde eu participo, em Botafogo, no Rio de Janeiro.
A primeira observação, neste campo, refere-se ao Primado absoluto da Palavra de Deus na Igreja. Como vocês sabem, sou filho do Concílio Vaticano II, os últimos anos da teologia coincidiam com a celebração do mesmo, eu bebia com muita sede as últimas notícias dos debates conciliares. Quando padre jovem me lancei, com outros colegas, a colocar em prática o modelo de Igreja dos Documentos Conciliares, no sentido de devolver ao povo a Palavra que lhe tinha sido arrancada das mãos desde a Reforma. Surgiram assim os Círculos Bíblicos e as CEBs no Vicariato Oeste do Rio de Janeiro, experiência que felizmente continua, mesmo sem a primazia que, penso, deveria ter. Os tempos mudaram e na Igreja houve, com João Paulo II, o que alguns teólogos denominam “a volta à grande disciplina”, o que não foi sem conseqüências. Muitas paróquias e dioceses continuam priorizando a formação das crianças e abandona a formação de adultos. As crianças fazem a primeira comunhão e quando crescem são “empurradas” para as Igrejas evangélicas porque falta formação para os adultos. Falta uma espécie de “escola dominical para adultos. As respostas que receberam por ocasião da primeira comunhão não lhe servem para as problemáticas dos jovens e adultos do mundo de hoje. Aquele Primado absoluto da Palavra de Deus na Igreja preconizada pelo Vaticano II foi para onde?
A segunda observação refere-se à base laical da Igreja: O Vaticano II fez uma revolução copernicana na concepção da Igreja entendida como povo de Deus. Contrariamente ao modelo anterior que partia da hierarquia, este parte do povo: nele todos somos iguais pelos sacramentos da Iniciação. Neste modelo de Igreja, o leigo adquiriu o verdadeiro lugar, com amplo espaço de iniciativa, liberdade, autonomia, participação, espiritualidade própria, etc Sem dúvida, a partir do Vaticano II, a colegialidade transformou-se no ar novo que se respirou no âmbito de toda a Igreja. Criou-se uma consciência de comunhão nas Conferências Episcopais, nos Conselhos diocesanos, paróquias e comunidades. Ao menos na realidade onde eu vivo, tudo isto ficou no papel. O padre é um pequeno papa e manda de forma absoluta e obsoleta. Os leigos somos tratados como crianças.
O desafio passa, a meu modo de ver, por um novo estilo e uma nova forma de evangelização, distante do poder. Creio que o mundo de hoje nos coloca, aos cristãos, a exigência de uma mudança radical. Na transição sócio-cultural que atravessamos, os relacionamentos estão quebrados e as pessoas vazias e perdidas. Quem for capaz de criar espaços de acolhida e de relacionamentos profundos, ganha a batalha. Desde Constantino, a Igreja evangelizou a partir do poder e não vejo a estrutura clerical com vontade de mudar. Salvo engano, existe aqui um imenso campo de ação mercedária no cada vez mais perverso e aterrador cativeiro atual. O texto do Capítulo Geral do México, Os Mercedários e a Nova Evangelização, pode ser um excelente meio para enfrentar este problema.
Estas observações, de caráter pessoal, encontram uma maior e melhor iluminação nas palavras dos teólogos José Comblin, Libânio e outros teólogos renomados.
4) Missão redentora na educação: ciência e cultura a serviço da libertação. Outrora, os grilhões do cativeiro foram construídos fundamentalmente por condições políticas adversas entre cristãos e muçulmanos na Idade Média. No mundo da modernidade, os grilhões do cativeiro são construídos fundamentalmente por um tipo de ciência e de cultura a serviço da máquina de produção e consumo, que deixa, como dizia Paulo VI, a maioria dos comensais fora da mesa. Possivelmente estejamos aqui diante de um dos grandes desafios da história: elaborar um ideário de educação libertadora nos diversos níveis, intelectual, afetivo, social. Somente ali onde o homem pode amadurecer livremente, é possível falar em liberdade e poderá surgir a fé. Penso que a Província deverá investir na preparação de pessoas vocacionadas para um real projeto libertador na educação.
5) Apostolado carcerário? Por um problema meramente acadêmico, em 2006 fui levado a desenvolver uma pesquisa de campo nas Prisões de Niterói, Rio de Janeiro. Pessoalmente foi um impacto entrar em contato e perceber o lado mais sombrio da sociedade brasileira, um autêntico porão sub-humano, um depósito para onde se enviam determinado tipo de pessoas que entraram em conflito com a lei. Nunca tinha entrado numa prisão. Nas assembléias da Vicaria, ao menos no meu tempo, não se tratou esta problemática porque sabíamos que era exigido, especialmente pelo governo da época da ditadura, que os padres que trabalhassem nesta área fossem nacionais. Atualmente, ao menos em Salvador é feito um trabalho muito bonito por intermédio de uma equipe das mercedárias missionárias e dos mercedários da casa do Noviciado. Sem ter respostas para tanto, creio que é mais um desafio para a nova Província repensar esta problemática.
6) Presença em ONGs e movimentos de libertação:
Como afirma antes, o mundo é perpassado por duas forças em permanente conflito: os mecanismos de opressão cada vez mais sofisticados e perversos e a força de resistência que se expressa nos movimentos populares, nas minorias, nos excluídos. Por aí abre caminho o processo libertador.
Dizia Emílio Santamaría no texto Carisma Mercedário a serviço da Igreja do Brasil, no livro A liberdade está cativa: “Penso que estas duas opções pastorais (as CEBs e os movimentos de Libertação) podem ser assumidos por nós, mercedários, como prioridades bem dentro da linha do nosso carisma. Educar a fé do pobre, no sentido libertador, e preparar o pobre para se engajar nas práticas de libertação, são formas de ação que na Igreja da América Latina se tornaram fundamentais. O individualismo não resolve, o paternalismo também não. Somente a inserção em amplos movimentos ajudará a remover o peso que recai sobre o pobre, e a participação em pequenos movimentos de bairro, de comunidade, de rua, poderá treinar o povo para uma empresa maior”
VI) Dimensão criadora do carisma mercedário
Os teólogos mais lúcidos do momento apontam para a necessidade de re-fundar a Igreja, na sua dimensão institucional. Especialmente José Comblin, uma autoridade na Igreja do Brasil, afirma que o mundo mudou e a instituição eclesial continua a mesma. Nessa linha, eu me autorizo a falar, para a Família Mercedária aqui presente, que não devemos atuar no século XXI com a mentalidade e os instrumentos do século XX. E se me permitem avançar no raciocínio, a Província São Raimundo Nonato do Brasil não deve continuar com a mentalidade e as práticas do século XX. Por causa disso, ela é chamada, enquanto Província, a criar algo novo
Para que aconteça o novo no século XXI importa percorrer, no Brasil de hoje, o caminho de Nolasco, olhar para esta realidade com seus olhos. Neste sentido, creio ser fundamental juntar duas tradições fundantes: a tradição eclesiológica latino-americana que arranca do Vaticano II, passando por Medellín, Puebla, Santo Domingo e agora Aparecida. Para isto, a contribuição do teólogo mercedário Lisaneos é fundamental, pois encontra-se no momento escrevendo um livro a respeito. Em sintonia com ela, importa reler a tradição mercedária, especialmente as Constituições de 70, o Capítulo Geral de 74, a reunião de Superiores Pronvinciais de Córdoba, Argentina (1978), o documento Os Mercedários e a Nova Evangelização do Capítulo Geral do México no ano de 1992. Da junção destas duas tradições é possível criar algo novo.
Devo acrescentar, ainda, que a dimensão criadora é algo constitutivo do humano, dos sujeitos e da sociedade. Sem a fantasia, sem a capacidade de sonhar, os seres humanos perdem a capacidade de levantar o vôo das grandes realizações e, não raro, terminam nos manicômios ou nas prisões. As águias viram galinhas, como diria Leonardo Boff.
Criar, o quê?-vocês me perguntarão. Criar uma nova forma de encarnar o carisma mercedário. É isto que está implícito no ato fundador da Província São Raimundo Nonato. Quando um artista esculpe uma madeira ou um bronze, imprime nele uma nova forma. É a forma que define a obra de arte. A madeira, os instrumentos, a cultura do artista, o ambiente social, tudo estava lá, mas ele, com esses elementos, cria algo novo. É essa a diferença entre o artista criador e o artesão, este reproduz o que existe, o primeiro cria algo novo. Criar a Província São Raimundo Nonato exige criar uma nova maneira de encarnar o carisma mercedário. Sem isso, as obras, os prédios, os trabalhos não tem consistência nem futuro. São meros reprodutores dos velhos vícios do passado. Trata-se de inovar, de encarnar o carisma em formas novas.
Quem são os sujeitos dessa criação? Cada religioso, cada leigo, a Família Mercedária como um todo, a Província. Trata-se de um trabalho de mutirão, onde é possível aglutinar todas diferenças. Em termos carismáticos, ninguém deveria perguntar: o que a Província tem a oferecer, mas o que eu tenho a oferecer a ela?
E os elementos desta criação? O Evangelho, (na condição de discípulos e missionários do Cristo Libertador), o Carisma e a Realidade brasileira e latinoamericana. Com uma condição: estes três elementos precisam caminhar juntos, constituindo um tripé, se um deles é eliminado, o conjunto desaba
VII) Mais que fazer coisas, ser MERCÊ de Deus.
A teoria é necessária. Sou dos que pensa que nada mais prático que uma boa teoria. Porém, aqui, mais que dizer ou fazer isto ou aquilo, o que importa é Ser Mercê. Na prática do dia a dia é onde se joga a grande batalha. Orquestrar grandes celebrações, por mais necessárias que elas sejam, não é difícil. O difícil e importante é ser mercê nas escolhas que cada um vai fazendo de forma responsável no decorrer da vida.