Andragogia das jotas

A Spes sente-se fiel ao espírito do bispo D. António Ferreira Gomes, pensador da vida pública, em nome da liberdade.Por iniciativa da Fundação Spes, terminou quarta-feira, no Auditório da Faculdade de Medicina do Porto, a celebrar 50 anos, uma série de quatro debates, cada um com um dos candidatos à Câmara Municipal do Porto. A ideia decorreu do curso de Ética e Política, promovido pela referida Fundação. Os participantes desejavam praticar a teoria aprendida com algum exercício efectivo.A proximidade das eleições encaminhou para estes interessantes debates, através de uma modalidade inovadora. Os responsáveis pela animação do debate eram as juventudes partidárias (JP, JSD, JS, JC, JBE). Coube--lhes formular perguntas aos candidatos: Rui Sá, Teixeira Lopes, Elisa Ferreira, Rui Rio, sobre três áreas: educação, acção social e cultura. As sessões constituíram um acto raro e positivo de andragogia política. Este termo apela para a educação do ser humano adulto, uma vez que pedagogia etimologicamente se refira apenas a crianças.

De facto, foi verdadeira andragogia o trabalho prévio de construção do modelo e escolha dos campos de questionamento, a inter-relação entre os futuros actores políticos, a escuta das diferentes propostas e estratégias, evidenciando lacunas a apresentando críticas, lançando sugestões e abrindo sonhos.

O tom de respeito pelas diferentes soluções e o cultivo da cidadania assumiram o papel de serviço ao futuro e alimentam a esperança de um novo modo de estar na política. Uma nova geração de líderes políticos se adivinha. A Fundação Spes, que acaba de merecer a declaração de utilidade pública, alegra-se por servir de instituição independente promotora desta abertura de perspectivas e alargamento de olhares, a partir dos lugares e pontos de partida (o) de cada jovem. Sente-se fiel ao espírito do fundador, D. António Ferreira Gomes, pensador crítico da vida pública, em nome da profecia da liberdade.

Romper com visões unidimensionais e experimentar a sabedoria de princípios basilares da democracia, pôr em questão decisões políticas e pôr-se em questão pelo realismo do possível, sem perder o voo da utopia, é vivência existencial de andragogia política.

A iniciativa do Porto mostra como é possível debater projectos políticos sem cair na pura má-língua, sem denegrir o adversário, mas reconhecendo que há perspectivas válidas nos opositores. Portugal tem urgência de esforços consensuais em ordem a uma reforma sustentada e duradoura de sectores vitais como a justiça e a educação.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
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