Fatalismo eleitoral

Seria um golpe, mais um, na classe política se não encontrasse governabilidade para um país débil. Ganha terreno um certo fatalismo, como se cada eleitor não fosse protagonista de um futuro. Antes de escolher em quem votar, surge a pergunta: haverá quem queira governar um país ingovernável? Ao observar a campanha eleitoral em curso, parece claro que há voluntários para a tarefa. Naturalmente, consideram com consciência e responsabilidade a difícil missão. De facto, são graves os problemas sociais, como o desemprego e a pobreza, que exigem medidas ousadas e determinadas, capazes de mobilizar todos os portugueses para a sua indispensável participação e contributo. Haverá realismo necessário para proceder às reformas essenciais, como por exemplo a da justiça e da administração pública? Será possível sem uma coligação amplamente sustentada e consensual para enfrentar ruidosos interesses particulares e com firmeza estruturar um país do qual nos orgulhemos?

Não se imagina, apesar da antecipação de cenários, baseados nas sondagens e na fantasia dos comentadores, quem terá a missão de reunir parceiros políticos para levar por diante uma solução estável para Portugal. A situação financeira do país não se compadece com jogos de teimosia e com contínuas mudanças de rumo, próprios de fatalistas debilidades partidárias.

Entro nesta temática porque sem uma rede de valores, nos quais entre a legalidade – pois diante da lei todos são iguais –, não parece haver caminho de saída. Nenhum sector ou actividade, onde esteja em jogo um valor humano, está excluído da experiência renovadora da fé cristã.

Não é o privado social que é subsidiário do público e executa o que o público não consegue fazer. Há que revirar esta lógica. O público é que deve ser subsidiário da autonomia organizativa da sociedade civil. O empreendedorismo, também social e educativo, merece que os políticos e os serviços públicos lhe deixem mais espaço, favoreçam a sua responsabilidade, vigiem a sua actuação qualificada. A começar pelas famílias, os vários grupos sociais são chamados a ser protagonistas e não apenas destinatários dos serviços.

As crises só são oportunidade através de soluções políticas inovadoras, sem fatalismos, com vincada determinação, disposta a enfrentar, de modo duradouro e consequente, resistências persistentes. O voto de cada um deve apenas ser fiel à consciência, sem calculismo dos jogos posteriores não declarados. Seria um golpe, mais um, na classe política se não encontrasse governabilidade sólida para um país débil

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
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